Continuidades
26.12.2018
O dia estava pleno.
Daqueles dias de sol de inverno que são de absoluta claridade. Aquela clareza que nos abraça a alma. Que nos faz trazer um sorriso mesmo quando estamos no nosso pior dia.
Não me apetecia muito sair à rua mas quando cheguei, pisei-a, num dia que parecia até pintado.
Optei por não pensar muito no que se tinha passado. Os gritos ainda ecoavam na minha mente. Como se fossem imagens de um filme qualquer que estava a ver ao mesmo tempo que aquele dia tão perfeito que me entrava pelos sentidos adentro.
É difícil ouvir verdades dos outros. Que não são as nossas. Provavelmente também não sabemos quais são as nossas verdades, e também não as queremos ouvir, mas sabemos pelo menos quais não são.
Aquela não era a minha verdade.
Não tanto pelo que se dizia mas sobretudo pela forma como se dizia.
A forma, muda tudo.
A forma, é o que faz com que o nosso mundo seja num segundo, diferente.
- Será que ela não entendia ou não queria entender? - Pensei eu.
Perdida naquele pensamento ia-me deixando contagiar pelo dia. Pela luz. Pela perfeição dos sentidos. Do simples criamos momentos perfeitos. Queria esquecer. Sabia que ela teria de fazer o seu processo e talvez voltasse com outra forma, com outras palavras. Ou talvez não.
Era a minha bebé. Bem, sabia que não era minha. Esta história do “meu” e “minha” e posse é o maior contraponto de quem ama. O amar tem de ser livre. Mas a questão é se amamos todas as camadas e todas as fases dos outros? E eles as nossas? Acho que não. O amar existe nos momentos mas não na continuidade. Ou então na continuidade de todos os momentos. Baixos e altos. Intensos e serenos. E sim, não valia a pena enganar-me, amava-a em toda essa continuidade. Provavelmente, estaria eu também aos seus olhos, errada. Provavelmente a minha forma também não seria a melhor. Teríamos tempo de trabalhar as nossas diferenças. Minha bebé... Pensei novamente e desta vez deliberadamente com o sentido pleno de posse. Minha. Minha. E ria-me ao mesmo tempo por cometer esta traição ao verbo amar. Nisto, foquei-me uma vez mais na serenidade do dia pensando que gastamos tanta energia para resolver o que só o tempo resolve. Respirei fundo e desliguei o pensamento confiando que tudo voltaria melhor.
